
Campos do Serrano, ... de novembro de 1998.
Você já ponderou sobre como a implantação dessas salas mexe com atitudes e práticas escolares antigas? Veja:
- Quem passa a se movimentar são os alunos (que são jovens e em número bem maior) e não os professores (que são adultos e em número bem menor);
- A elaboração do horário dos professores passa a ter outros referenciais, tais como: as aulas passam a ser agrupadas por blocos e por períodos em cada sala ambiente e não por blocos de classes (o que tem que ser feito, preferencialmente, antes da atribuição de aulas);
- A introdução de aulas duplas torna-se fundamental, não só para maior aproveitamento das aulas, como também para a diminuição da circulação dos alunos pelo prédio; professores e alunos passam a se utilizar de recursos comuns (vídeos, mapas, revistas, fantoches, livros, sucatas, retro projetor, kits de laboratório etc.), o que exige a elaboração coletiva de regras de manutenção e uso desses materiais que têm que ser respeitadas por todos os envolvidos pois caso contrário, ninguém quer se responsabilizar por nada e muitoscomeçam a discordar de tudo.
Eu, a Diretora e a Vice quebramos a cabeça no começo da implantação das salas. Tivemos que desencadear um processo de planejamento que envolveu praticamente toda a escola:
- Reunimos os professores para que opinassem sobre os materiais necessários em cada área, a forma como seriam distribuídos nas salas e sobre quais poderiam ser comuns a várias salas etc.;
- Tivemos também que conduzir uma negociação "dura" com eles para a elaboração do horário. Você sabe como é difícil para as pessoas abrirem mão de interesses pessoais...
- Orientamos os professores-coordenadores de classe para ouvir os alunos e discutir com eles regras e normas, tanto para a movimentação inter-salas como para a utilização e manutenção dos materiais dentro das salas.
- A leitura do fascículo 7 do "Raízes e Asas" forneceu orientações interessantes sobre como distribuir responsabilidades na sala.
- Alguns professores decidiram partilhar com os alunos a distribuição e arrumação dos materiais dentro de cada sala.
- Reunimos também serventes e inspetores de alunos para que opinassem sobre as normas de funcionamento das salas.
Articular toda essa participação deu um trabalhão! Mas, olhando agora, acho que esse investimento valeu a pena! O processo ficou mais transparente e todos estão mais identificados com o ambiente e se sentindo mais responsáveis pela sua utilização.
Estou chegando à conclusão, Emilia, que atualmente, na escola, não dá para a gente decidir e nem tocar nada sozinhas. Pra dar certo, tudo tem que ser socializado, partilhado e discutido...
Deduzi que você também já percebeu que só modificar a organização da sala de aula não garante mudanças nas práticas docentes.
Os Professores entram para trabalhar nas novas salas carregando suas antigas teorias, convicções e saberes...
As salas- ambiente não têm, como até pensamos inicialmente, o poder mágico de transformar a prática dos professores, pois isso exige a revisão de nossas concepções de ensino e de aprendizagem.
Tudo isso é um processo gradativo, resultado das muitas leituras e discussões que fazemos com outros professores, na escola, no PEC etc ...
Você não deveria encarar esse momento que a sua escola está vivendo como negativo. Acredito que as salas- ambiente podem realmente atuar como grandes facilitadoras e enriquecedoras do trabalho escolar, principalmente se forem pensadas junto com a formação dos professores.
Considero a sua idéia de fazer oficinas para discutir a utilização dos recursos da sala-ambiente um ótimo caminho. Aliás, foi uma das estratégias que usei. Os professores traziam relatos das atividades desenvolvidas com os alunos na sala-ambiente.
Orientei, antes, que era importante o professor especificar como o material tinha sido utilizado, como tinham sido negociadas e geridas as regras para o desenvolvimento da atividade, o convívio na sala de aula, a utilização e a manutenção do material.
Fizemos uma boa discussão sobre cada relato, explorando:
1. O que o professor pretendia com a atividade?
2. Por que ela foi organizada daquela forma?
3. Que teorias de aprendizagem embasavam essa prática?
4.Algumas discussões ficaram tão ricas que chegamos, em alguns casos, a sistematizar a "Visão da Área".
5.Discutimos, também, como um mesmo recurso podia prestar-se a vários temas, vários momentos e várias situações. Ficou mais claro para os professores que, quando o aluno é orientado na sua interação com os materiais pedagógicos, tem mais condições de estabelecer relações entre o conhecimento escolar, sua vida e o mundo.
Além disso, uma nova organização da sala de aula pode facilitar o desenvolvimento da observação, a interação entre os alunos e a criatividade.
Apesar das oficinas terem sido muito produtivas e os professores terem gostado bastante, ainda temos problemas com as salas– ambiente , pois alguns professores continuam com medo de deixar os alunos manusearem os materiais.
Tudo o que tenho lido atualmente sobre sala-ambiente parece indicar que os melhores resultados têm sido obtidos nas escolas que têm mais autonomia, gestão colegiada, formação contínua de educadores e uma coordenação pedagógica eficiente.
Isto,reforça a idéia da sala-ambiente como um "meio" e não como um "fim".
Recomendo também que você leia o caderno "A escola de cara nova", da CENP/SEE-SP, que dá dicas sobre a organização das sala -ambientes em todos as disciplinas.
Vou parar por aqui, pois já está na hora de pegar meu filho mais novo na escola.Um grande abraço,
Clarice
Nenhum comentário:
Postar um comentário